Split/Second: Velocity - Análise

Você sabe qual o apelo popular de uma corrida, certo? Aquilo que ganha primeiras páginas de jornal? Coisas como Dale Earnheardt Jr. dando piruetas no ar dentro do chassi de um carro Nascar em chamas, Wellington Cirino enfiando a frente de seu caminhão Mercedes-Benz no guard rail ou Michael Schumacher acelerando para fora do Pit Stop, levando consigo o tanque de combustível e metade da equipe do box. E sabe o que todos esses atrativos tem em comum? Eles só ocorrem quando dá tudo errado. Nos videogames a história é um bocado diferente: desde a série Burnout (ou Destruction Derby se quisermos ser mais enciclopédicos), o gênero corrida ganhou vários títulos onde o enfoque é detonar latarias das formas mais criativas e absurdas possíveis. A verdadeira recompensa está em criar caos de tal maneira que a conquista do primeiro lugar seja mero caso de W.O.. Burnout Takedown foi o verdadeiro divisor de águas, e desde então nada apareceu para tira-lo do pódio. Eis que a Black Rock Studios e a Disney Interactive surgiram com uma nova ideia em Split/Second: se não consegue vence-los, junte-se a eles e derrube um arranha-céus em suas cabeças. O jogo é mega-explosivo, mas será que a falta de sutileza não esconde algum gameplay mal regulado? Split/Second é apenas aparência, sem substância? É o que vamos descobrir.
Em Split/Second, o jogador cai na pele de um participante em um fictício Reality Show. Ao invés de passar tardes todas na piscina, tomar banhos de topless e se conformar com um futuro de sub-celebridade, neste jogo cada um dos inscritos deve se aventurar em dezenas de corridas de vida ou morte. A sacada é que o cenário está pronto pra explodir em pedacinhos ao bel-prazer dos corredores, tornando cada disputa uma verdadeira armadilha viva. O sistema de jogo lembra um pouco a mecânica de Turbo de Burnout: para ganhar acesso aos "gatilhos" da fase (chamados "Power Play"), é necessário cumprir algumas metas durante a corrida. Derrapar bem nas curvas, seguir a traseira de um carro, escapar por um triz de uma explosão ou permanecer um certo tempo no ar colaboram para encher um barra de três níveis. Com a primeira porção completa, é possível realizar os Power Plays básicos: sempre que um ícone azul aparece em cima de um veículo adversário, o jogador é capaz de ativa-lo ao toque de um botão e mandar algum perigo como veículos em chamas ou explosões para cima dos oponentes. Estas podem ou detona-lo, ou criar uma zona de impacto que deixe o inimigo sem controle.
Mas é quando se alcança o terceiro nível que Split/Second mostra seu verdadeiro calibre. Os Power Plays de terceiro nível podem muitas vezes ser ativados sem precisar estar próximo dos oponentes e resultam em acidentes tão grotescos que vai ser difícil não soltar uma risadinha irônica depois. É possível derrubar uma torre e passar por dentro de seus emcombros, afundar um porta-aviões e correr sobre ele enquanto todo o convés se inclina para a água, explodir uma barragem inteira e o meu favorito: fazer um transatlântico titânico entrar de bico na zona portuária, varrendo inteiro a pista. O impacto é levado a proporções tão absurdas que a música, o ronco do seu motor e todo outro efeito sonoro simplesmente emudece antes da colisão fatídica, retornando em um baque sonoro fantástico. Além de detonar múltiplos oponentes e serem visualmente inacreditáveis, os Power Plays de terceiro nível muitas vezes abrem novas passagens na fase, mudando completamente o jogo de uma volta pra outra. E é justamente nesta palavra - "mudança" - que os elementos de Split/Second funcionam tão bem.
A grande genialidade do time da Black Rock Studios foi em algo aparentemente mundano: mesmo se o jogador fugir de um Power Play adversário, o carro será pego pela onda de choque do que seja que explodiu ou voou em sua direção. O impacto leva o carro a se comportar de forma rebelde por uns segundos, cantando o pneu e serpenteando pela pista. Combine isto a um gameplay na linha de Need for Speed e você terá um mecanismo de jogo interessantíssimo: apesar de ser meio excêntrico, Split/Second exije que o jogador saiba bem entrar e sair de uma curva com o máximo de velocidade possível e controlando de forma inteligente freio e acelerador. Há inquestionáveis traços de simulação. Mas não é incomum entrar num cotovelo e ser jogado para os lados por uma explosão, às vezes tendo que improvisar na hora um novo trajeto, às vezes facilitando o contorno do carro na curva. Todos os perigos aparecem em partes específicas do cenário e fica simples decorar o que ocorre onde em um dado circuito. Isso significa que você estará enfrentando sim perigos, mas diferente da anarquia de games como Blur, haverá menos frustrações, e bons jogadores até poderão utilizar ataques inimigos ao seu favor.
Isso não significa de maneira alguma que Split/Second seja fácil. O game conta com uma curva de aprendizado bem íngreme, em que fases iniciais começam a escalar em dificuldade bem cedo. O jogo segue a ideia de um programa de TV em sua estrutura: o progresso do jogador é dividido em "temporadas", cada uma com seis "capítulos" distintos - dois dos quais destravados por desafios específicos. Uma "temporada" conta com uma série de desafios bem diferentes entre si. Além da corrida tradicional, há um modo que te coloca contra um helicóptero Apache e te desafia a desviar de rajadas de mísseis cada vez mais fatais, outro em que a meta é ultrapassar caminhões que jogam barris explosivos de sua traseira, um terceiro que elimina o último colocado em intervalos de tempo e uma interessante corrida contra o relógio: além de dominar o traçado da fase, é necessário saber desviar de uma constante rajada de explosões e escombros. Todos os modos ganham novas variantes no decorrer do game e rapidamente se tornam um desafio e tanto. O jogo é muito divertido, mas é o tipo de game que exije que você se esforce um pouco - e controle sua vontade de jogar o controller janela abaixo. Por outro lado, o jogo te recompensa em largas doses, seja com carros novos para sua extensa garagem, seja com realizações (pense nos Achievements do Xbox 360 ou os Trophies do PS3) que aparecem como adesivos em seu posante. Isto tudo é apenas o modo carreira. Split/Second conta com um modo de corrida simples e um multiplayer online e offline (via split-screen). A taxa de framerate se mantem sólida mesmo quando mais de um jogador divide a ação, e no caso do jogo offline, muito pouco da qualidade visual é perdida. Vale dizer que o jogo perde um pouco de seu soberbo balanceamento no multiplayer, então se você é do tipo que não gosta de bagunça e não suporta perder, mantenha distância.
Split/Second é um jogo muito bonito. A interface inspirada em seriados televisivos funciona surpreendentemente bem: além dos menus estilosos, o gráfico todo é composto por uma saturação quente e ainda assim leve, que lembra algo saído de uma câmera digital de alta qualidade. As explosões são um prato cheio, levantando chamas e escombros em alta velocidade. É tudo tão bonito que dá até pra desculpar os modelos tridimensionais dos veículos - um pouco simples demais - e a repetitividae dos mesmo cinco ou seis cenários. Mas o que verdadeiramente rouba a cena em Split/Second é o som. A começar pelos próprios efeitos especiais: as explosões são barulhentas e, se não transformam seu carango em uma massa de lata cortando o ar, faz seus pneus cantarem. Junte a isso o satisfatório som dos motores e dos pedaços de cimento caindo ao chão e você terá um ambiente sonoro energético como poucos. A trilha sonora não fica atrás, com trilhas puxando para um Techno apenas agressivo o suficiente, que diminui ou aumenta a intensidade conforme o que acontece na tela. Se, por exemplo, um jogador ativa um Power Play lá longe, você saberá só de notar a entrada de um baixo dramático no meio da música. É genial.
Mais shooter que jogo de corrida, Split/Second rompe barreiras em seu gênero de uma forma bem pouco usual: seu apelo, mais do que qualquer Gran Turismo ou Forza, está em seu senso de drama. Lutar contra a massa de ar de um enorme avião de vôo internacional caindo em sua direção, tentando o máximo possível manter seu carro na pista e passar serpenteando entre a turbina e o corpo do gigante é inesquecível, e tratado pelo game como lugar comum. É quase como um filme de Hollywood desenrolando ao seu redor o tempo todo, e em momentos até mais do que isso. É claro que o visual e som soberbos podem sim esconder seus defeitos de gameplay, mas o game conta com uma espinha dorsal forte - a dirigibilidade é simples sem deixar de ser um convite ao raciocínio e experimentação. Se você está cansado de jogos de corrida, dê a este belo esforço da Disney Interactive uma chance: há tanta criatividade quanto calibre em Split/Second. E a cada nova curva, cada detonação e cada feedback visual e sonoro, é quase como se desse pra ouvir lá no fundo os desenvolvedores pensando. Recomendadíssimo!